Desabafo

Ano novo (de novo)

O começo de um novo ano sempre é muito esmagador. Sentimos o dever de uma renovação
no nosso funcionamento e queremos começar o novo, não cometer antigos erros e aproveitar
melhor o pouco tempo disponível.

Quem sabe eu comece uma série nova, ou continue aquele roteiro complexo que exige
paciência, ou procure projetos sociais para participar, ou tire do armário aquela ideia de livro
empoeirada após tanta obrigação que veio antes. Os caminhos da vontade são infinitos.

Mas se já é difícil criar uma prioridade para o que fazer primeiro, a vida não para, criando esse
senso de urgência: uma guerra iminente, a terra devolvendo de maneira macabra tudo o que
sofreu pela exploração dos recursos naturais, o preço de viver aumentando e o trabalho que
não cessa.

Por causa dessa pressão me restaria procrastinar como um mecanismo de defesa sobre esse
medo do desconhecido, mas será que conseguirei capturar Pokémon com esse sentimento de
que nada faz sentido e que talvez olhe pra janela e veja um foguete nuclear vindo na minha
direção? Será que conseguirei trabalhar pra receber dinheiro sentindo que esse sistema só
funciona por enquanto e quando quebrar não temos pra onde fugir pra não morrer de fome?
Nem sei plantar coisas! Conseguirei ficar feliz com minha casa nova se quando saio daqui vejo
pessoas nas ruas sem nada e estar escrevendo esse texto é só mais uma prova cabal de como
todo o meu questionamento do que fazer primeiro é tão bobo e fútil que eu deveria
simplesmente ficar na minha e seguir em frente? Não sei.

(Ok, ufa, melhor respirar um pouco. Na real não tem nada acontecendo).

Talvez só o falar seja um modo de resistência, e com muita sorte meu novo lugar na hierarquia
da sociedade me fará realizar mais por mim e pelos outros. Como ouvi uma vez, a vida tem
que ser sobre conseguir privilégios pra mim para levar esses privilégios para os outros.

Quero ter consciência do possível, pensar em tudo um passo de cada vez, lembrar que não dá
pra mudar todo o sistema com uma só atitude, mas sim através de várias atitudes menores e
mais significantes. São todos os ensinamentos dos anos anteriores que eu quero carregar pra
esse e pros próximos que virão. Tenho amigos do meu lado que sentem as mesmas
inquietações, então quero lembrar que não estou sozinho.

Hoje venci minha ansiedade paralisante e escrevi um texto. Foi gigante pra mim.
Poderia não ter feito nada e estaria tudo bem também.
Vai dar certo no final, sempre dá.

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